Novamente e outra vez

Escrevo esse texto no primeiro dia de dezembro de 2025, ou seja, com 2026 já batendo na porta. Fim do ano e começo de outro: um exemplo mais clássico e comum para todos nós que esse, impossível. “Tu vens, tu vens…”, como diz a canção. Além do derradeiro fim de ano, são muitos os exemplos de repetição do cotidiano: música, rotina, ciclos na natureza, atitudes, comportamentos, pensamentos, hábitos, costumes, estampas repetitivas, mantras, orações, poesias, entre muitos outros exemplos. A repetição envolve previsibilidade, sendo uma forma de lidar com algo já conhecido, mesmo que não faça sentido ou que seja desconfortável. Sabe quando fazemos o que fazemos meio no “automático” ou sem parar para pensar o por quê? É na psicoterapia que temos a chance de encararmos as questões mais profundas a respeito disso e de nossa psiquê.

A repetição para a psicanálise

Para a psicanálise, o conceito de repetição (Wiederholung, em alemão) é muito caro e importante, especialmente quando acontece no contexto da análise ou da psicoterapia psicanalítica e, dessa forma, pode ser identificada e interpretada. A repetição, dentro do consultório, é promovida pela relação entre paciente e analista/psicóloga e significa que uma experiência afetiva de outros momentos da vida são novamente experenciados, de uma maneira atualizada pela pessoa do presente. Isso propicia o trabalho de algumas vivências infantis que estavam recalcados e inacessíveis à consciência. Ao invés do conteúdo ser lembrado, ou seja simbolizado (pois está submetido ao mecanismo de defesa do recalque e também porque encontra certa resistência do Ego), ele se manifesta por meio do que Freud chamou de atuação. Esse fenômeno seria uma forma de ação, sem que se saiba conscientemente o porquê da repetição acontecer (Almeida & Atallah, 2008).

“O eu não é mais senhor em sua própria casa”, Sigmund Freud

Existe a repetição de comportamentos, escolhas e atitudes em diversos momentos da vida de uma pessoa e que têm influência de conteúdos inconscientes. Alguns deles podem ser recordados e elaborados em terapia, com o apoio emocional da psicóloga psicanalítica.

Referências

Almeida, L. P. De; Atallah, R. M. F. O conceito de repetição e sua importância para a teoria psicanalítica. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 11, n. 2, p. 203–218, jul. 2008.

Freud. Recordar, repetir e elaborar. In: Obras completas, vol 12, São Paulo : Companhia das Letras, 2010.

Esse artigo foi escrito por:

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Jacqueline Bonardi Tavares

Psicóloga – CRP 06/201399

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