Tem um passado no meu presente
Quando nascemos somos totalmente vulneráveis e dependentes de outras pessoas, sob muitos aspectos, e por muito anos. Sobra a organização psíquica, as relações e as conexões que experimentamos e construímos desde os primeiros meses de vida são fundamentais para as que acontecerão ao longo da vida. Além do desenvolvimento emocional, o cognitivo também tem as suas bases nas interações sociais.

Podemos entender todas esses pontos mencionados acima a partir de aspectos internos e externos do psiquismo, vamos a elas. O que acontece dentro e fora de nós que nos estrutura?
Vygotsky: o social e a linguagem
Lev Vygotsky (1896 – 1934), em seus trabalhos, nos indica que o desenvolvimento psicológico humano acontece a partir do contexto social, sendo a linguagem um instrumento de suma importância para tal processo acontecer.
Ele elabora que o desenvolvimento mental e a aprendizagem são promovidos pelo entorno social do sujeito, especialmente quando se fala sobre a relação entre alguém que sabe mais/tem mais experiência e aquele que tem um potencial de desenvolvimento (e ainda vivenciou pouco). Esse entendimento diz sobre a natureza de aspectos cognitivos da mente: pensamento, aprendizagem e linguagem. A publicação “Formação social da mente” é uma grande referência para a psicologia a partir de um olhar histórico e social.

Freud, o inconsciente, os afetos e as estruturas psíquicas
Freud (1865 – 1939), na virada do século XIX para o XX, fundou a Psicanálise, cujo foco de estudo é o inconsciente. Ele propôs uma explicação inovadora para a época a respeito do desenvolvimento psicológico e emocional, estabelecendo as fases psicossexuais, os conceitos de pulsões, os mecanismos de defesa e a estruturação do Eu e do SuperEu. Em suas publicações mais tardias em sua carreira, Freud trouxe o início da compreensão das relações de objeto, narcisismo, luto e melancolia.

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Freud e Vygotsky eram contemporâneos e, cada um com sua clínica e abordagem, contribuíram para um maior entendimento sobre o desenvolvimento psíquico humano. Da mesma maneira, psicanalistas pós-freudianos (tais como Melanie Klein, Anna Freud, Winnicott, Ferenczi, Lacan, Bollas, Ogden, entre muitos outros) puderam colaborar para a ciência da Psicanálise, trazendo ampliações nos âmbitos das relações de objeto, formação do Ego, simbolização, linguagem, fases e posições do desenvolvimento psíquico, intersubjetividade, entre tantos outros conceitos importantes para a psicanálise moderna.
Bollas: o inconsciente receptivo, as relações primordiais e a estruturação do eu
Vamos pensar nas contribuições de um desses profissionais pós freudianos: Christopher Bollas. Ele nasceu em 1943, ou seja, depois da morte de Freud (1939) e de Vygotsky (1934) e é um psicanalista que têm ampliado os conhecimentos a respeito do desenvolvimento da subjetividade e do self, à luz das relações de objeto. Isso significa que as interações entre bebê e seu cuidador mais próximo estruturam a psique humana. Relação essa que está inserida em uma cultura e em determinado tempo histórico, devemos nos lembrar.

Antes do pensamento ou da simbolização de conteúdos, há um inconsciente receptivo que tem contato com as experiências proporcionadas pela interação direta com um cuidador, que supre as necessidades do bebê (fisiológicas e afeto) e tem papel fundamental no desenvolvimento do self do indivíduo. Nos primeiros meses, o Ego do bebê é a sua mãe: eles são um só. À medida que ocorrem sensibilizações no inconsciente desse bebê através dos cuidados e dos comportamentos vindos de sua cuidadora, ocorrem transformações intrapsíquicas que estruturam um eu próprio e singular, o Self do bebê. A libido do bebê direcionada a um objeto exterior (a mãe) e as introjeções das experiências vividas com ela estruturam de maneira particular esse funcionamento psíquico e irá ressoar pelo restante da vida do indivíduo.
Posteriormente, a relação triangular mãe-bebê-pai se apresentará em um cenário psíquico em curso. Nesse contexto, a pulsão de destino, ou seja, a libido direcionada ao objeto de amor entra em disputa. Essas vivências são condensadas no inconsciente receptivo, sendo fonte para as relações de objeto futuras, elaboradas em outras fases da vida. O inconsciente é fonte de possibilidades e de criatividade, e é organizado em uma estética impressa a partir das relações de objeto mais primordiais da vida do bebê, em um idioma compartilhando entre eles.
A linguagem como simbolização (em uma comunicação sistematizada e com significados), as formas de ser/se expressar no mundo, as reações diante do que acontece ao redor e a comunicação em um determinado idioma com as demais pessoas são processos em alguma medida tem relação com conteúdos que se associaram no inconsciente receptivo lá nos primórdios do desenvolvimento psíquico, oriundos das relações objetais originais, que estruturaram o Eu e que ressoam nas relações intersubjetivas do momento presente da pessoa. Em análise, experiências aglutinadas, representantes das pulsões e sintomas podem encontrar brechas para serem simbolizados e também elaborados com a relação de transferência promovida pela psicoterapia psicanalítica.
Ligando os pontos: dentro, fora e entre
As experiências primordiais inconscientes, cujo potencial criativo tem influência na formação de símbolos, signos, sentidos (e significados) na consciência, são estruturadas por meio das relações sociais e da cultura. Portanto, o desenvolvimento do psiquismo não está isolado de seu entorno e o que acontece internamente em cada pessoa é fundamental para as demais relações objetais que ainda serão construídas ao longo da vida.
Referências
Bollas, C. A Pulsão do Destino. In: Forças do Destino: Psicanálise e idioma humano. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1992.
FREUD, S. O eu e o id. In: Obras completas, vol. 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
Nettleton, Sara. Cap. 2 Inconsciente receptivo e genera psíquico. In: Nettleton, Sara. A metapsicologia de Christopher Bollas. Editora: Escuta, São Paulo, 2018.
RAMOS, J. F. S.; RIBEIRO, M. F. DA R.. O momento estético como potencialidade de vida e de futuro. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 25, n. 3, p. 710–730, jul. 2022. https://www.scielo.br/j/rlpf/a/ZM86CsTcTvxSPfV8gfLXbCG/?lang=pt. Acessado em 27/10/2025.
ROSA, Ana Paula Marques da; GOI, Mara Elisângela Jappe. Teoria socioconstrutivista de Lev Vygotsky: aprendizagem por meio das relações e interações sociais. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 24, nº 10, 26 de março de 2024. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/24/10/teoria-socioconstrutivista-de-lev-vygotsky-aprendizagem-por-meio-das-relacoes-e-interacoes-sociais


