Qual é a relação entre animais de estimação e a saúde mental humana? A companhia e a proximidade com eles podem realmente trazer alívio para questões emocionais?
Em algum momento desse texto chegaremos mais objetivamente no que podemos chamar de benefícios dos pets para a saúde mental das pessoas. Mas, antes disso, vou trazer um pouco sobre a proximidade de duas referências da área médica e os seus próprios animais de estimação, assim como de seus contextos clínicos.
Animais de estimação no cuidado terapêutico ao longo da história
Especificamente em saúde mental, a primeira utilização de cachorros e outros animais para fins terapêuticos de maneira expressiva foi através de William Tuke, em 1792, em um hospital na Inglaterra, ao buscar meios de humanizar o tratamento de questões psíquicas. Outro nome importante nesse cenário é o de Florence Nightingale (1860), cujo trabalho hospitalar a partir da interação entre doentes e animais de estimação indicou a potencialidade terapêutica da interação ser humano-animal. Ainda no século XIX, iniciativas e trabalhos semelhantes ocorreram em outros locais da Inglaterra e na Alemanha.
Freud: pai da psicanálise e também de pet
Freud (1856 – 1939), como todo mundo já sabe, foi o criador da psicanálise e, obviamente, da técnica clássica de análise do inconsciente. De acordo com cartas escritas por ele e a partir de relatos de uma paciente, Freud por vezes fazia os seus atendimentos com um de seus cachorros, Jofi (Yofi). A presença canina deixava o ambiente mais acolhedor e, de certa forma, estimulava a comunicação do paciente. Além disso, mudanças sutis no comportamento de Yofi muitas vezes indicavam o estado emocional da pessoa naquele momento.


Nise da Silveira e a ampliação do cuidado
Nise (15/02/1905 – 30/10/1999), ao trabalhar como psiquiatra no hospital do Engenho de Dentro (Centro psiquiátrico Pedro II, Rio de Janeiro) utilizou abordagens e tratamentos totalmente diferentes dos praticados na época. Indignada com a técnica de eletrochoque e com as condições do local, Nise começou a usar recursos como pintura, escultura e desenho nos seus atendimentos. Estudiosa da psicologia analítica fundada por Jung, estabeleceu uma clínica mais profunda para o tratamento de questões psíquicas graves.
Dentro do hospital, Nise permitia que cachorros convivessem com os pacientes do setor que ela trabalhava. Com isso, ela pôde acompanhar e estudar como a convivência com animais de estimação poderia contribuir para a melhora das questões psíquicas e emocionais. A construção de vínculos afetivos foi um dos grandes ganhos para os pacientes. Além disso, a rotina com os cachorros estabelecia um ponto de ligação daquelas pessoas com a realidade. Para Nise, os animais eram considerados coterapeutas. Nise era tutora de gatos e existem diversas fotos dela com eles.




Em 1962, nos Estados Unidos, o trabalho do psiquiatra Boris Levinson trouxe a temática para a esfera acadêmica publicando trabalhos sobre a utilização de seu cachorro Jingles em sessões de psicoterapia com crianças, enfatizando o ganho na comunicação, redução da ansiedade e favorecimento das interações sociais. Boris publicou “O cachorro como um coterapeuta” (1962) e “Animais: uma Técnica Especial na Psicoterapia Infantil” (1972) e, neste último, estabeleceu o termo “Pet Therapy”.
Terapia Assistida por Animais (TAA), aqui e agora
O termo para designar as terapias que utilizam animais como facilitadores para cuidados cognitivos, físicos e psicossociais foi determinado em 1996 e, atualmente, a classificação “Intervenções Assistidas por Animais” abarca mais de um termo para os trabalhos terapêuticos que utilizam a interação homem-animal para os mais diversos tratamentos/acompanhamentos de saúde. A TAA pode ser utilizada por diferentes profissionais da área da saúde (e não só psicólogas e psiquiatras), com objetivos pensados e de acordo com as demandas do paciente. Neste contexto, o animal tem o papel de facilitador do trabalho terapêutico.
Atualmente, é comum encontrarmos Terapias Assistidas por Animais (TAA), assim como a presença de animais de suporte emocional (Animais de Suporte Emocional, ASE) no cotidiano de pessoas com ansiedade e depressão, por exemplo, auxiliando também na lida com o estresse e dores crônicas. Os efeitos terapêuticos da interação pessoa-pet também são valiosos para pessoas com Alzheimer, autismo e outras condições.
Vale ressaltar que além do bem-estar das pessoas, deve-se cuidar da saúde e qualidade de vida dos animais que são empregados nesses tipos de serviços, tendo em vista também as questões éticas e técnicas que regem os profissionais das mais diversas áreas da saúde, tendo em vista o caráter multidisciplinar da TAA. No Brasil, esse tipo de terapia ainda precisa ser reconhecido/orientada pelo Conselho Federal de Psicologia, quem sabe um dia…
Enfim…
Pessoas, com transtornos mentais ou não, fazendo análise ou terapias de outras abordagens, podem se beneficiar do convívio com os pets. A companhia deles e os passeios/caminhadas com cachorros, por exemplo, ajudam a contornar a solidão, motivam a prática de uma atividade física (a caminhada) e criam a necessidade de uma rotina e responsabilidade acerca dos cuidados com o pet. A sensação de bem-estar e a diminuição do stress também se fazem presentes, uma vez que o contato com os animais promove a diminuição do cortisol (hormônio do stress) e a liberação de oxitocina (relacionada ao amor e vínculos afetivos).
Referência
Lima, Rafael Ambrosio de. Psicoterapets, a terapia assistida por animais pode ser utilizada pela psicologia para beneficiar a saúde mental? Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2025.


