Tédio, por que me sondas?

O personagem do tédio, todo monocromático, expressão facial neutra e em constante uso do celular reflete a falta de energia e desânimo tão característicos desse afeto. A origem da palavra tédio remonta à palavra grega akedia, vinda de kedos (“importar-se com”), ou seja, “não importar-se com”. O tédio tem relação com o desprazer, a indiferença, a monotonia. Ele vem da falta de significado e do vazio. Ele pode surgir nas atividades mais rotineiras. A percepção da passagem do tempo, a procrastinação da execução de certas atividades (ou de tomadas de decisão) e uma maior liberdade de escolha do que fazer com o tempo, são componentes interessantes quando se discute sobre a experiência de sentir tédio. O que te deixa entediado? As redes sociais tem sido usadas como uma fuga de momentos desinteressantes do dia-a-dia? A grande quantidade de informações e estímulos presentes nas redes de certa maneira ajudariam a preencher o vazio do tédio? Referência Gradin, Adriana Meyer Barbuda. Tédio e apatia como sintomas: manejos na clínica psicanalítica. 2018. 209 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia: Psicologia Clínica) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia: Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018.
O que é psicanálise?
A psicanálise é um campo de estudos e de produção de conhecimento que tem como foco o inconsciente. É uma linha teórica que, em consultório, embasa a psicoterapia psicanalítica (ou de base psicanalítica), também conhecida como uma franquia da marca Psicanálise. Ela foi estabelecida por Sigmund Freud, neurologista austríaco, no final do século XIX e no começo do XX. Mas antes de “inventar” a psicanálise, Freud trabalhou junto com outros médicos: Charcot e Breuer. Charcot era neurologista e usava a hipnose nos tratamentos que conduzia. Basicamente, essa técnica possibilitava uma regressão ao momento de vivências esquecidas que pudessem ser as causas dos sintomas apresentados por pacientes que, à época, eram chamadas de histéricas. A sessão de hipnose era a oportunidade delas colocarem em palavras memórias marcantes/traumáticas. Freud também trabalhou com Breuer, outro médico importante para o estabelecimento das bases da nova área de estudos que viria a se chamar psicanálise. Com seus trabalhos clínicos, Freud pode conceituar aquilo que não está na superfície, e que nem pode ser facilmente acessado, mas que interfere em nossos comportamentos. Através da fala e da escuta, o analista pode interpretar (e compreender a psicodinâmica) os conteúdos trazidos no discurso livre do paciente e manejar a transferência que ocorre entre analisando e analista. Freud publicou uma vasta obra. Outros profissionais o seguiram, ampliando assim o campo de estudos da Psicanálise. Jung, Lacan, Melanie Klein, Winnicott, Bion, Ferenczi, entre outros, são exemplos de terapeutas psicanalíticos e produtores de conhecimento nesta área. Com tais linhas teóricas, derivadas da teoria de Freud, psicoterapeutas fundamentam os seus atendimentos todos os dias. Daqui me despeço. Até o próximo post!
A inveja está entre (e em) nós

Olho gordo, dor de cotovelo, olho que seca a pimenteira, a inveja tem sono leve, são expressões populares associadas à inveja. No filme DivertidaMente 2, a personagem inveja foi retratada com os olhos deeeeeeesse tamanho, pupilas dilatadas e brilhando. Mas como podemos definir a inveja? Vou trazer o conceito a partir da psicanálise. Segundo Melanie Klein: “A inveja é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável […]” (Klein, 1957, p. 236). Ela está presente desde os momentos mais primários da vida do bebê, quando o Ego ainda está fragmentado. Lidar com a inveja, e com os efeitos dela, faz parte do desenvolvimento emocional do indivíduo. “Há muitos anos venho me interessando pelas fontes mais arcaicas de duas atitudes que sempre nos foram familiares: a inveja e a gratidão. Cheguei à conclusão de que a inveja é um fator muito poderoso no solapamento das raízes dos sentimentos de amor e de gratidão, pois ela afeta a relação mais antiga de todas: a relação com a mãe.” (Klein, 1957, p. 230, 231) Nos primeiros meses de vida, a inveja é muito mais potente. Os recursos psíquicos internos e o contexto de cuidados que o bebê recebe são aspectos que interferem na lida com essa inveja estrutural. O bebê se defende dela com mecanismos criados pelo seu Ego. Um exemplo de mecanismo é a “desvalorização do objeto” (Klein, 1957, p.278), que se desenvolve no contato do bebê com a mãe/cuidador(a), sendo ela/ele alvos da projeção dos impulsos agressivos do nenê. Existem outros mecanismos de defesa que também operam contra o sentimento de inveja, esse é apenas um para pensarmos no tema inicialmente. Em etapas de vida como a adulta, adolescência, ou até mesmo a infância, pode-se observar certos mecanismos de defesa do Ego contra a inveja durante as interações sociais da pessoa. Novamente, há uma expressão popular conhecida: quem desdenha quer comprar, que pode nos ajudar a pensar em um contexto para esse tema, pois se não é possível ter/ser aquilo que se deseja, o Ego subestima/desvaloriza/estraga o seu foco de atenção. Enfim, daqui me despeço. Esse é um assunto bastante denso e complexo, que merece outras postagens! Referência Melanie Klein. Inveja e gratidão e outros ensaios, 1946-63. São Paulo: Ubu editora, 2023.
O que o exercício físico tem a ver com a saúde mental?
A atividade física é uma grande aliada da saúde física e mental Antes de entrarmos no assunto em si, vamos reconhecer um contexto aqui. O professor que tem a aula imediatamente anterior à de educação física, sabe que terá que lidar com a expectativa dos alunos para que tal aula chegue logo. É complicado propor lições/tarefas e fazê-los focar no momento da aula presente. A preocupação geral é a educação física. Os/As professores/as dessa disciplina são os mais queridos. Mas como nós de outras disciplinas podemos superar as aulas que envolvem movimentos, competições e brincadeiras corporais que fazem o cérebro liberar neurotransmissores relacionados ao bem-estar? É um grande desafio. Exercício físico e saúde mental são grandes parceiros Os benefícios dos exercícios físicos não são segredo para ninguém. Prevenção de doenças, tratamento/complemento terapêutico para condições de saúde adquiridas ou congênitas, favorecimento de interações sociais, controle do peso e ampliação da consciência corporal, entre outros efeitos positivos, são exemplos do que os exercícios podem fazer pela saúde de maneira geral. Claro que, antes de mais nada, é fundamental uma avaliação médica que indique a aptidão física para a atividade que se pretende realizar. Especialmente sobre a dinâmica cerebral e a saúde mental, sabe-se que, a partir das atividades físicas, ocorre a liberação de neurotransmissores (endorfina e dopamina) que causam a sensação de bem-estar, relaxamento e a moderação de dores. Há também a liberação da serotonina, que auxilia no controle do humor e contribui para a sensação de satisfação de maneira geral. A constância é fundamental A prática recorrente de exercícios físicos interfere diretamente na qualidade de vida de quem os realiza. Os benefícios se estendem ao sono, à disposição e à melhora de condições relacionadas à saúde mental. Ah e, naturalmente, as preferências em relação ao tipo de atividade partem de cada pessoa. Gostar do exercício faz diferença para que se mantenha a motivação em praticá-lo.
Fala e escuta como partes de um remédio
Descubra nesse post o que é psicoterapia Na psicoterapia a fala e a escuta andam juntas. Mas afinal, o que psicoterapia significa? Basicamente, a palavra quer dizer que existe um tratamento e um acompanhamento de questões de saúde mental por parte de uma psicóloga, que auxilia: no alívio de sofrimentos emocionais, no manejo de comportamentos disfuncionais, na melhora de sintomas psíquicos e na lida do paciente com a familia, relacionamentos amorosos, amigos e colegas de trabalho. A psicoterapia é também uma chance de ampliar o autoconhecimento e proporcionar o desenvolvimento pessoal daqueles que recorrem à ela. Pode ser, também, um momento para a promoção de saúde e qualidade de vida. Tudo isso acontece a partir do trabalho técnico e ético da psicóloga, que presta esse serviço. A escuta, a compreensão e a interpretação da profissional são partes do processo psicoterapêutico. O acolhimento das queixas e demandas do paciente é o ponto de partida do que chamamos de psicoterapia. “Assim, entende-se que a psicoterapia é um campo de conhecimentos teóricos e técnicos, e uma prática de intervenção sustentada por esses conhecimentos, que se desenvolve em um relacionamento interpessoal.” (Conselho Federal de Psicologia, 2022, p.11) A psicoterapia se organiza em sessões (atendimentos) agendadas, com determinada duração de tempo e podem ser realizadas individualmente ou em grupo. Outra característica importante, é a abordagem psicológica utilizada pela profissional, pois são diversas. Vale acrescentar que a psicóloga pode utilizar testes ao longo das sessões para entender mais sobre alguns aspectos subjetivos e da personalidade da/o paciente que talvez não tenham sido trazidos em momentos anteriores. Daqui me despeço, até o próximo post! Referência Conselho Federal de Psicologia. Reflexões e orientações sobre a prática da Psicoterapia, Brasília, 2022. Disponível em: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2023/06/caderno_reflexoes_e_orientacoes_sobre_a_pratica_de_psicoterapia.pdf
Eco ansiedade: vamos falar sobre ela?
Eco-anxiety, também conhecida como ansiedade ecológica, é um termo criado pela American Psychological Association (APA), Associação Americana de Psicologia, que não está nos manuais diagnósticos (ou seja, ela não é reconhecida como um transtorno de ansiedade por si só) mas que faz sentido ser discutida e comentada. O termo abarca, genericamente, a ansiedade cuja angústia, preocupação, medo, e apreensão decorrem das mudanças climáticas globais. Não há um evento na história de vida da pessoa que a caracterize, mas sim a consciência dos desequilíbrios ambientais, assim como, de suas severas consequências, que trazem preocupações em relação ao futuro do planeta, assim como em relação às condições de vida incertas que enfrentaremos. Na verdade, parte das situações climáticas adversas já estamos enfrentando. O futuro é logo ali e de certa forma ele já chegou. Dando um contexto para esse assunto, em setembro de 2024, a fumaça de queimadas se espalhou por quase todo o território brasileiro. A temporada de seca de inverno e, as altas temperaturas anormais para essa época do ano, adicionaram mais elementos à um cenário cada vez mais preocupante. As notícias abaixo trazem informações sobre a problemática: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2024/09/09/fumaca-de-incendios-na-amazonia-cobre-o-ceu-do-brasil-e-pode-chegar-a-argentina-e-ao-uruguai.ghtml https://www.brasildefato.com.br/2024/09/14/70-das-queimadas-no-brasil-em-2024-destruiram-vegetacao-nativa https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/veja-como-fumaca-de-queimadas-no-brasil-se-espalhou-no-ultimo-mes https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2024/09/11/as-8-imagens-mais-impressionantes-da-seca-e-das-queimadas-no-brasil.ghtml Ao olhar para o horizonte e para o céu cinza, era perceptível que havia fuligem na atmosfera. O sol em um tom estranho de laranja também indicava que muitas particulas estavam em suspensão no ar. Quanto mais próximo à locais dos focos de queimadas, mais a fumaça fez parte da rotina das pessoas por dias e dias. Mudanças climáticas, desequilíbrio ecológico, aquecimento global, esgotamento dos solos, derretimento de geleiras, desmatamento, micro plásticos nos oceanos, devastação de biomas, extinção de espécies animais e vegetais, chuva ácida, entre outros, são problemáticas que requerem ações coletivas e complexas. Governos, autoridades, instituições públicas e privadas precisam de objetivos e ações concretas para o curto, médio e longo prazos. O futuro incerto e, as mudanças climáticas já claramente perceptíveis (aos olhos e na pele), são estímulos para a chamada eco ansiedade. Já escrevi aqui no blog sobre a ansiedade em si, seus sintomas e como ela pode se apresentar de maneira disfuncional, é só clicar no link a seguir: Daqui me despeço! Até o próximo post.
Ansiedade, quem te convidou?
Cheia de malas, sem pressa de ir embora Quando a ansiedade foi revelada como uma novidade para o filme DivertidaMente 2, foi um alvoroço na internet: muitos comentários e memes foram feitos. Logo já se criaram expectivas de como seria vê-la em ação durante o filme. Claro que alguma coisa ela iria aprontar, com certeza (eu mesma pensei isso). Enquanto personagem de animação, ansiedade foi representada com a cor laranja e uma blusa listrada (que é uma estampa repetitiva). O laranja é a cor ligada à energia e excitação e os adjetivos que são atribuídos à ela são: frenético, impulsivo e intrusivo. Para obter o laranja é necessário a mistura das cores amarela e vermelha, que também são relacionadas à energia. Mas quem convidou a ansiedade? Na verdade, ela não precisa de convite (não é possível). A ansiedade, enquanto uma manifestação mental humana, acontece naturalmente na vida das pessoas. É possivel percebê-la quando estamos diante de alguma situação ou estímulo estressor, desconhecido ou que seja entendido como um risco. É uma reação ligada à sobrevivência do organismo e traz consigo reações fisiológicas que mobilizam comportamentos de luta ou fuga. Alguns sintomas de ansiedade são: tensão muscular, prevalência do estado de vigilia, aceleração dos batimentos cardíacos, sudorese e tremores. O medo, quando se associa à ansiedade, apresenta-se de maneira intensa, desporporcional ou até mesmo incontrolável diante de algum estímulo ou situação específicos e pode mobilizar comportamentos de esquiva. Além disso, preocupações constantes e repetitivas, inseguranças e apreensões sobre o futuro podem fazer parte dos pensamentos da pessoa. A ansiedade é, portanto, uma sensação desconfortável, tanto fisicamente, quanto psiquicamente. Nos quadros ansiosos, ela atrapalha a qualidade de vida da pessoa, trazendo sofrimento. Dessa forma, a ansiedade é considerada um transtorno e exige mais atenção. Muitos fatores podem contribuir com o estabelecimento dos mais diversos tipos de transtornos de ansiedade. Situações da história de vida, vivências traumáticas, fatores hereditários e aspectos da personalidade do indivíduo podem contribuir para uma estado psíquico que exija um acompanhamento de profissionais da saúde, tais como psicóloga e psiquiatra. De acordo com o mais recente relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) – “World mental health report: transforming mental health for all” (ou seja, “Relatório mundial sobre saúde mental: transformando a saúde mental para todos”, 2022), 13% da população mundial (970 milhões de pessoas) enfrentam algum transtorno de ordem mental. Dessa parcela, os transtornos de ansiedade estão presentes em 31% das pessoas, ou seja, são os prevalentes. A psicoterapia pode auxiliar pessoas com transtornos de ansiedade? Sim, bastante. Seja qual for a abordagem utilizada pela psicóloga, a psicoterapia é muito importante para o tratamento da ansiedade. Através dos relatos da/o paciente e a escuta profissional da terapeuta, é possível reconhecer os momentos que intensificam os sintomas ansiosos. Com o processo terapêutico, a percepção de si é ampliada e a identificação das causas da ansiedade acontece e, então, podem ser elaboradas junto com a psicóloga. Além disso, antes de mais nada, o acolhimento da psicoterapeuta pode promover o alívio do sofrimento desencadeado pela ansiedade. Esse é um assunto amplo e merece mais de uma postagem. Daqui me despeço. Até o próximo post. Referências American Psychiatric Association (APA). DSM V – Diagnostic and Statistical Manual for Mental Disorders, 5th version. Washington (DC): American Psychiatric Press, 2013. Castillo, A. R. G. et al.. Transtornos de ansiedade. Brazilian Journal of Psychiatry, v. 22, p. 20–23, dez. 2000. Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais, 3. ed., Porto Alegre: Artmed, 2019. Heller, Eva. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. Tradução Maria Lúcia Lopes da Silva, 1. ed. São Paulo: Gustavo Gili, 2013. World Health Organization. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338. Acesso em 17 de agosto de 2024.
