Por que sou assim?
Humor, temperamento, personalidade e tudo mais Logo nas primeiras páginas do livro “Vinte mil léguas submarinas” de Júlio Verne (1870) conhecemos um personagem Conseil, que é descrito da seguinte maneira pelo professor Aronnax: “Conseil era meu criado. Um rapaz dedicado que me acompanhava em todas as minhas viagens; um corajoso flamengo de quem eu gostava muito e que gostava muito de mim; um ser fleumático por natureza, regrado por princípio, zeloso por hábito, pouco afeito a se surpreender com as surpresas da vida, muito habilidoso com as mãos, apto para qualquer serviço, e, apesar do seu nome, alguém que nunca dava conselhos, mesmo quando lhe eram solicitados.” p. 19-20 Essa breve descrição traz vários adjetivos de Conseil e vou me concentrar em um deles aqui nesse texto: fleumático, uma palavra que vem desde os primórdios da história da medicina. No paragrafo apresentado, Aronnax nos comunica o jeito de ser de seu empregado e como ele lida com as coisas da rotina. Basicamente, foi nos contado como é o temperamento/a personalidade de Conseil. Mas, o que é personalidade? Diversas explicações foram sendo propostas para explicar a saúde, a doença, inclusive os fenômenos psicológicos. Um exemplo é a chamada teoria dos humores, proposta por Hipócrates (460 a.C.-377 a.C.), na Antiguidade. O desequilíbrio na proporção de substâncias chamadas humores (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra) ou uma mistura incorreta deles, causariam os problemas de saúde manifestados pelas pessoas (Rezende, 2009). A origem da palavra humor na língua portuguesa é do latim e significa “fluido, linfa”. O predomínio de um dos humores, segundo Galeno (129-200 d.C.) determinaria um tipo específico de temperamento, ligado ao comportamento do indivíduo: colérico, sanguíneo, fleumático e melancólico (Rezende, 2009). E personalidade? Com o avanço da medicina como um todo e, posteriormente, a psiquiatria e psicologia, o entendimento do jeito de ser de cada um e de como cada pessoa lida com o que acontece ao seu redor foram sendo ampliados. De maneira geral, a personalidade diz respeito às características únicas do psiquismo de uma pessoa que influenciam a forma como ela age e interage com as demais pessoas e com o as situações ao seu redor. A personalidade envolve aspectos biológicos e contextuais da vida do indivíduo. Tais peculiaridades conferem certa estabilidade em relação à maneira de ser de cada um a medida que o psiquismo se desenvolve (Schultz, 2015). Existe mais de uma explicação para o desenvolvimento da personalidade: psicanalítica, genética, humanista, cognitiva, comportamental e social (Schultz, 2015). Essas categorias de análise, visões de mundo e concepções de ser humano são abordagens diferentes da Psicologia. Referências Schultz, Duane P. Teorias da personalidade, 3. ed. São Paulo, SP: Cengage Learning, 2015. Ito, P. do C. P., & Guzzo, R. S. L.. (2002). Temperamento: características e determinação genética. Psicologia: Reflexão E Crítica, 15(2), 425–436. https://doi.org/10.1590/S0102-79722002000200019 Rezende, J. M. Dos Quatro Humores às Quatro Bases. In: À sombra do plátano: crônicas de história da medicina [online]. São Paulo: Editora Unifesp, 2009, pp. 49-53. História da Medicina series, vol. 2. ISBN 978-85-61673-63-5. https://doi.org/10.7476/9788561673635.0005.
Lítio, pessoas e máquinas
Quando se estuda a história da Medicina e das primeiras explicações a respeito da saúde, doença e de fenômenos psicológicos, nos deparamos com a teoria dos humores, proposta por Hipócrates, lá na Antiguidade. O desequilíbrio na proporção de substâncias chamadas humores (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra) ou uma mistura desequilibrada deles, causam os problemas de saúde manifestados pelas pessoas. A teoria dos humores foi utilizada por Galeno para explicar os diferentes temperamentos apresentados pelas pessoas, a saber: colérico, sanguíneo, fleumático e melancólico. Era o início das explicações sobre estados afetivos/emocionais e de humor, cujas características interferem no jeito que o indivíduo lida com situações internas e com o seu contexto social (Rezende, 2009). Conforme a medicina avançou e também com o estabelecimento da psiquiatria e psicologia, o entendimento sobre humor, desenvolvimento psíquico e fenômenos psicológicos foram sendo ampliados. A ideia dos humores foi superada. O estado emocional (ou estado de ânimo) básico e generalizado que uma pessoa demonstra em determinado momento é chamado de humor, que por sua vez, atravessa as experiências psíquicas do sujeito, podendo alterar as suas percepções diante do que do que ela está vivendo. O humor pode ser mais rebaixado ou excitado, de forma mais ou menos acentuada, com aumento ou diminuição de energia e disponibilidade para interações. (Dalgalarrondo, 2019). Se fizermos uma comparação do humor com as formas de relevo, podemos associar às diferenças em relação a elevação ou rebaixamento. A região de depressão é o solo mais rebaixado (o humor diminuído) e a mais elevada tais como serra e montanha (humor mais elevado, hipomania e mania): Humor e as suas variações Quando o humor varia intensamente, prejudicando a relação com outras pessoas, com o trabalho e a qualidade de vida de forma geral, entende-se que um quadro de transtorno pode estar em curso. Nesses cenários, quando uma pessoa é avaliada por um médico psiquiatra, ele pode fazer o diagnóstico (ou não) de algum dos transtornos de humor e prescrever um medicamento. Além de remédios, o acompanhamento psicoterapêutico é muito importante para a melhora da condição mental. Existem vários transtornos de humor reconhecidos e, dentre eles, a depressão e o afetivo bipolar. Dentro de cada um deles, há nuances e manifestações diversas com relação ao humor do indivíduo. O Lítio no vértice da saúde mental e da tecnologia Uma das medicações mais tradicionalmente usadas para a bipolaridade é o lítio, conhecido como estabilizador de humor, com ação nos episódios de mania (humor excitado) e com menor ação na fase depressiva do transtorno (Stahl, 2014). O lítio (Li) é um elemento químico enquadrado como metal alcalino. No caso de medicamentos, o carbonato de Lítio (Li+) é conhecido como sal de lítio. Na indústria e tecnologia, o lítio é empregado na fabricação de baterias para celulares e veículos elétricos, além de suas variações entrarem na produção de graxas, vidros e cerâmicas, e ainda ser usado na metalurgia. Referências Lítio: o mineral estratégico que é protagonista na transição energética, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/litio-o-mineral-estrategico-que-e-protagonista-na-transicao-energetica. Acessado em 26 nov. 2025. Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. Massabni, Antonio Carlos. A importância do lítio na psiquiatria. https://crqsp.org.br/a-importancia-do-litio-na-psiquiatria/, 2006. Rezende, J. M. Dos Quatro Humores às Quatro Bases. In: À sombra do plátano: crônicas de história da medicina [online]. São Paulo: Editora Unifesp, 2009, pp. 49-53. História da Medicina series, vol. 2. ISBN 978-85-61673-63-5. https://doi.org/10.7476/9788561673635.0005. Stahl, Stephen M. Psicofarmacologia: bases neurocientíficas e aplicações práticas. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.
Novamente e outra vez
Escrevo esse texto no primeiro dia de dezembro de 2025, ou seja, com 2026 já batendo na porta. Fim do ano e começo de outro: um exemplo mais clássico e comum para todos nós que esse, impossível. “Tu vens, tu vens…”, como diz a canção. Além do derradeiro fim de ano, são muitos os exemplos de repetição do cotidiano: música, rotina, ciclos na natureza, atitudes, comportamentos, pensamentos, hábitos, costumes, estampas repetitivas, mantras, orações, poesias, entre muitos outros exemplos. A repetição envolve previsibilidade, sendo uma forma de lidar com algo já conhecido, mesmo que não faça sentido ou que seja desconfortável. Sabe quando fazemos o que fazemos meio no “automático” ou sem parar para pensar o por quê? É na psicoterapia que temos a chance de encararmos as questões mais profundas a respeito disso e de nossa psiquê. A repetição para a psicanálise Para a psicanálise, o conceito de repetição (Wiederholung, em alemão) é muito caro e importante, especialmente quando acontece no contexto da análise ou da psicoterapia psicanalítica e, dessa forma, pode ser identificada e interpretada. A repetição, dentro do consultório, é promovida pela relação entre paciente e analista/psicóloga e significa que uma experiência afetiva de outros momentos da vida são novamente experenciados, de uma maneira atualizada pela pessoa do presente. Isso propicia o trabalho de algumas vivências infantis que estavam recalcados e inacessíveis à consciência. Ao invés do conteúdo ser lembrado, ou seja simbolizado (pois está submetido ao mecanismo de defesa do recalque e também porque encontra certa resistência do Ego), ele se manifesta por meio do que Freud chamou de atuação. Esse fenômeno seria uma forma de ação, sem que se saiba conscientemente o porquê da repetição acontecer (Almeida & Atallah, 2008). “O eu não é mais senhor em sua própria casa”, Sigmund Freud Existe a repetição de comportamentos, escolhas e atitudes em diversos momentos da vida de uma pessoa e que têm influência de conteúdos inconscientes. Alguns deles podem ser recordados e elaborados em terapia, com o apoio emocional da psicóloga psicanalítica. Referências Almeida, L. P. De; Atallah, R. M. F. O conceito de repetição e sua importância para a teoria psicanalítica. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 11, n. 2, p. 203–218, jul. 2008. Freud. Recordar, repetir e elaborar. In: Obras completas, vol 12, São Paulo : Companhia das Letras, 2010.
É terapia ou é terapêutico?
Descubra o que é terapia, terapêutica e efeito terapêutico A saúde mental precisa tanto de um quanto de outro e é comum que as pessoas confundam terapia com terapêutico e vice-versa. Quando se buscam as definições para essas palavras, encontram-se as raízes em palavras gregas, vindas de um contexto dos primórdios da Medicina. Em essência: terapia é um procedimento usado para tratar alguém doente. Tem origem na palavra grega therapeia, do verbo therapeúo e significa prestar cuidados/tratar. Terapêutica vem de therapeutiké e está relacionada às escolhas das terapias que serão usadas para o tratamento de uma doença (Rezende, 2010). A terapêutica é a escolha do que será indicado/aplicado pelo profissional de saúde, que pensa nas técnicas/práticas a serem empregadas para melhora de sintomas e de condições físicas e mentais. Falando especificamente de saúde mental, a psicoterapia age no cuidado e no tratamento de condições emocionais, embora não se restrinja ao acompanhamento de transtornos em si, mas da pessoa e suas questões, conflitos, dilemas, assim como de seu desenvolvimento psíquico como um todo, em suas singularidades. As sessões envolvem fala, escuta, acolhimento, aconselhamento e interpretação, nas quais um vínculo terapêutico é estabelecido entre psicoterapeuta e paciente/cliente. A psicóloga embasa a sua escuta e técnica de condução da sessão em alguma abordagem psicológica. Falar e ser ouvido são ações valiosas para a psicoterapia. Leia também: Fala e escuta como partes de um remédio e Entenda as funções de psicólogas e psiquiatras O todo e as partes A melhora da saúde mental não se restringe às sessões de psicoterapia ou às consultas com psiquiatra. Buscar a ajuda especializada de profissionais da saúde mental é sim de suma importância, mas devemos lembrar que há complementos bastantes importantes. Aí que chegamos nas atitudes/ações/atividades que fazem diferença na rotina de quem busca se sentir melhor e obter um alívio de sintomas, aumento da autoestima, melhora da percepção de si, melhora das conexões sociais, entre muitos outros aspectos que são complementares e muito importantes para a saúde mental de pessoas e seus grupos. O que popularmente chamamos de terapêutico causa um efeito de bem-estar, alívio e ajuda em diversas condições de saúde mental. Exercícios físicos, alimentação saudável e laços afetivos significativos são pontos que sempre merecem nossa atenção. Nesses âmbitos, pode-se incluir atividades diversas que contribuam para o alívio de sofrimentos, ganho de habilidades/aprendizagem de coisas novas e até mesmo ganho de vínculos sociais (ou fortalecimento dos já existentes). O mais efetivo é buscar atividades que a pessoa goste de realizar, pois há um componente subjetivo nessas escolhas que influencia na permanência em atividades que julgamos ser terapêuticas. Outro ponto é o acesso e o tempo disponível para fazer o que se curte e o que é significativo, por isso é necessário que se discuta como o funcionamento da sociedade atual impacta nesses quesitos (salários e jornadas de trabalho dignos, políticas públicas de saúde e lazer para idosos e grupos vulneráveis, entre outros). Aliados da saúde Exemplos do que pode ser terapêutico ou que pode contribuir com efeitos positivos para a saúde: corrida, ginástica, Pilates, esportes, ouvir/estudar música, cuidar das plantas, cuidar de pets, caminhadas em parques, ler, dança, ter uma religião/cuidar da espiritualidade (se isso for um aspecto significativo para o sujeito), escrever, viajar, pintar, desenhar, cozinhar, fazer trabalhos manuais (crochê, tricô…), enfim, entre muitos outros exemplos que podem ser considerados terapêuticos. Enfim, o que chamamos de terapêutico não envolve necessariamente a ação de um médico, psicóloga, educador físico ou terapeuta ocupacional (claro, que eles também tem as suas ações/técnicas específicas e terapêuticas), ele está além da atuação desses profissionais. O equilíbrio entre as atividades cotidianas é o mais recomendado quando pensamos em cuidados integrais e que também promovam a saúde a longo prazo. Terapia, terapêutica e tudo aquilo que é terapêutico formam um mosaico quando falamos de cuidados e tratamentos de transtornos ou condições mais específicas de saúde. Leia também: Chassi de grilo e as vantagens em ser e O que o exercício físico tem a ver com a saúde mental? Referências Conselho Federal de Psicologia. Reflexões e orientações sobre a prática da Psicoterapia, Brasília, 2022. Disponível em: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2023/06/caderno_reflexoes_e_orientacoes_sobre_a_pratica_de_psicoterapia.pdf Rezende, Joffre Marcondes de. TERAPIA, TERAPÊUTICA, TRATAMENTO. Revista de Patologia Tropical / Journal of Tropical Pathology, Goiânia, v. 39, n. 2, p. 149–150, 2010. DOI: 10.5216/rpt.v39i2.10734. Disponível em: https://revistas.ufg.br/iptsp/article/view/10734. Acesso em: 15 nov. 2025.
Raiva com r maiúsculo
Qual você escolhe como um grande representante para a raiva? Mônica (Mauricio de Sousa, 1963), Raiva (Disney, 2015) e Zangado (Disney, 1937) Eu escolho a Mônica! Quando era criança existiam o Zangado e a Mônica, obviamente, e talvez por isso tenho uma conexão mais nostálgica com eles. O/A Raiva do DivertidaMente é mais das novas gerações, mas também tem o seu carisma. Em essência, esses personagens tão famosos apresentam em comum a emoção tão intensa da raiva. Eles tem pavio curto, sabe? Pouca paciência? Sim. Impulsividade? Também! Porém cada um tem as suas singularidades. Olhando mais de perto para cada um A Mônica nos mostra bem como é a raiva: uma reação diante de algo que incomodou, afetou ou passou dos limites. Geralmente, a personagem mobiliza toda a sua agressividade quando é chamada de dentuça e gorducha, por exemplo. Nem chorar ou se isolar, ela se defende com coelhadas. A/O Raiva também se comporta de forma semelhante, trazendo reações explosivos e gritos irados. É visivelmente todo vermelho (e de cabeça quente, como se diz popularmente), com figurino mais “corporativo” e está sempre por um fio. O Zangado também demonstra a raiva, sem a menor vontade de escondê-la. Ele tem um temperamento (ou personalidade) inflexível, que enxerga mais o lado ruim dos outros e das situações. Em algumas cenas, ele chega a expressar falas machistas (sim, eu sei que é uma animação de 1937). Outros grandes adjetivos para ele podem ser: rabugento e enraivecido. Percebo que existe algo além de uma reação momentânea/pontual perante uma situação transitória. Nesse sentido, ele é um contraponto interessante à Mônica que, ao contrário do Zangado, é uma personagem alegre e disposta a estar com os amigos. Zangado, por outro lado, passa uma energia de ressentimento, quase nada de paciência e quase nada de flexibilidade nas interações com os anões e com a Branca de Neve, sendo até mesmo desconfiado. Bom, mas assim como eu escrevi no texto da vergonha, o assunto personalidade/temperamento merece um post separado. A raiva por ela mesma e como encará-la Na Língua Portuguesa temos várias expressões populares: “na hora fiquei cego de raiva”, “o sangue subiu”, “cabeça quente”, “soltar fogo pelas ventas”, “enfezado”, “acordou de ovo virado”, entre muitas outras que não me recordo agora ou não conheço ainda. A raiva é uma das emoções que frequentemente faz parte da rotina das pessoas. Sentir raiva tem a sua importância! Ela está entre os afetos básicos do psiquismo e é compartilhada com os demais animais. É uma reação perante àquilo que nos atravessou, incomodou, insultou, ameaçou ou quando nos deparamos com injustiças. A raiva tem o poder de mobilizar uma série de comportamentos de defesa, que muitas vezes estão relacionados à luta e hostilidade. Porém, devemos nos lembrar que estamos em sociedade e precisamos gerenciar como lidamos com a raiva e com os comportamentos derivados dela (Reich, 2022; Simanke, 2019). Vou trazer um exemplo bem banal: dirigir, pegar trânsito e tudo mais. Isso é algo que fortemente convoca a raiva, não é difícil saírem xingamentos e buzinas durante um trajeto. Mas, é necessário inibir tudo isso, manter a calma e evitar comportamentos agressivos ou impulsivos. Umas das funções que se estabelecem com o desenvolvimento do lobo frontal do cérebro humano é o controle inibitório e a tomada de decisões. E essa região é a que demora mais para se desenvolver. Por isso que quando somos crianças e adolescentes prevalecem os comportamentos impulsivos, agressivos ou impensados. Essa é uma explicação das neurociências. Para a psicanálise, raiva e irritação são representantes da pulsão de morte (que está no inconsciente) e são manifestações frente a um aborrecimento, frustação ou injustiça. Da raiva podem derivar sentimentos como o ódio (que é um extremo de destrutividade, que pode ter como destino outras pessoas ou a si mesmo) e a inveja (Simanke, 2019). Não é incomum que a raiva e a irritação se combinem a partir de um quadro de estresse, especialmente em cidades grandes. Ai precisamos ter mais atenção ainda, pois sentir tudo isso constantemente exige muito do emocional e do físico de uma pessoa. Ao longo do tempo, há consequências para a saúde mental e física (Cabral, 2007). Existem nuances Admitir que sentiu raiva de algo ou de alguém pode ser um desafio para algumas pessoas, que chegam a segurar ao máximo antes de extravasar essa emoção tão forte. Também é importante dizer que podemos aprender a lidar de maneira mais saudável com a raiva, assim como com os demais afetos. A raiva tem uma relação estreita com a cultura e as situações sociais. Referências CABRAL, A. C. DE Q.. Stress e o turbilhão da raiva. Estudos de Psicologia (Campinas), v. 24, n. 1, p. 125–127, jan. 2007. Disponível em <https://www.scielo.br/j/estpsi/a/ZTk3sdx7XfnKLX75RnXQ3wp/?format=html&lang=pt>. Acessos em 27 out. 2025. RECH, Dyane Lombardi et al . Técnicas para Manejo da Emoção de Raiva: Uma Revisão Sistemática. Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro , v. 22, n. 1, p. 292-307, jan. 2022. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812022000100292&lng=pt&nrm=iso>. Acessos em 27 out. 2025. SIMANKE, Richard Theisen. Além do bem e do mal: algumas considerações sobre a visão psicanalítica do ódio. Rev. bras. psicanál, São Paulo , v. 53, n. 1, p. 125-148, mar. 2019. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486-641X2019000100010&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 28 out. 2025.
Chassi de grilo e as vantagens em ser
Como está o seu contato com a natureza? Entenda os benefícios dela para a saúde mental Nunca escondi de ninguém que sou totalmente a favor de atividades na natureza e da contemplação de belas paisagens. Passeios ao ar livre e viagens de ecoturismo são formas interessantes de buscar o tão necessário descanso mental. Muitos fatores estão envolvidos na relação entre saúde mental e natureza: lazer, atividade física, bem-estar, prevenção e até tratamento de transtornos mentais, entre outros. Já escrevi anteriormente sobre as aproximações entre exercício físico e saúde mental, leia: Como sabemos, a vegetação é fundamental para: regulação do clima, preservação dos corpos de água, manutenção do solo e abrigar a fauna da região. Com séculos de crescente industrialização e urbanização do mundo, os prejuízos ambientais foram se acumulando, sem tempo de recuperação do ambiente frente às demandas cada vez maiores de produção e de consumo. No Brasil, particularmente, a devastação ambiental teve início no período colonial. Chuva de benefícios para a saúde… Vem ai uma chuva dos benefícios do contato com a natureza: bem estar, controle do humor, alívio de sintomas depressivos, ansiosos e do estresse, melhora da condição imunológica e favorecimento do contato social, assim como da prática de atividades físicas (Barreto, 2017). Dois trabalhos sobre a temática são os seguintes: redução do estresse, de Ulrich (1981); Restauração da Atenção, de Rachel e Stephen Kaplan (1989) e melhora do sistema imunológico, de Kuo (2015) (Pessotti, 2024). Áreas verdes e azuis como aliadas da saúde Residir mais próximo de vegetação (área verde) e do litoral, ou de lagos, lagoas e rios, (áreas azuis) tem impactos positivos na qualidade de vida das pessoas. Cidades mais arborizadas são importantes para restaurar e tentar manter uma certa conexão das pessoas com ambientes naturais. É importante dizer que a qualidade, a manutenção e o acesso às áreas verdes e azuis são aspectos muito importantes para a correlação entre saúde mental, bem-estar, promoção de saúde num geral e qualidade de vida. Além disso, o contato com ambientes naturais pode promover a regulação emocional como um antídoto para uma vida urbana barulhenta e intensa (Barreto, 2017). Quando falamos sobre as áreas verdes/azuis e urbanização, devemos lembrar e cobrar dos representantes políticos a criação e a manutenção dessas áreas com as corretas acessibilidades para a população. Mais importante do que isso, as políticas ambientais devem ser efetivas para preservação/conservação dos biomas, assim como devem existir ações concretas para o combate ao desmatamento, queimadas, tráfico de animais e tantas outras questões que causam impactos aos ecossistemas brasileiros. Somos parte da natureza e nos esquecemos disso Vou deixar aqui um vídeo do Ailton Krenak, líder indígena, ativista, filósofo e escritor, com uma fala importante sobre a humanidade e a natureza. Assista clicando na imagem: Leia também: Referências Barreto, Patricia Amado. Áreas verdes urbanas e saúde mental.. 2017. 64 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Humanas e Saúde; Epidemiologia; Política, Planejamento e Administração em Saúde; Administra) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017. Pessotti, Pedro Henrique de Abreu. Florescendo em Meio à Natureza: O Impacto dos Ambientes Naturais sobrea Saúde Mental Humana. Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, 2024.
O tão comentado narcisismo
Narcisismo é um termo que aparece frequentemente em redes sociais, em vídeos no Youtube, as pessoas falam e escrevem sobre ele pela internet afora. Antes de mais nada, precisamos falar sobre outra palavra: libido. Libido é a energia psíquica associada à pulsão de vida. Ela é ligada à autopreservação, ao amor, busca de prazer/satisfação e aos desejos sexuais. Agora sim, o narcisismo em si… O que ele é? Ele é um processo que envolve a libido orientada para si mesmo. É importante para a formação do Ego (Eu) e de uma imagem idealizada dele, que fica internalizada na psique. O narcisismo surge logo nos primeiros anos da infância e, nesse período, a libido está investida totalmente no próprio Eu. A energia libidinal, posteriormente, poderá ser também destinada a objetos diferentes do Eu, ou seja, para outras pessoas e interesses. Segundo Freud: “Um ser humano permanece narcisista em certa medida mesmo depois de ter encontrado objetos externos para a sua libido.” (Freud [1913], 2006) Referências Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. Freud (1914-1916). Obras completas volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Drubscky, Camila Andrade Até que ponto o narcisismo pode ser datado? Uma reflexão à luz das contribuições de Piera Aulagnier / Camila Andrade Drubscky ; orientadora: Ana Maria Rudge. – 2008
Essa vergonha foi no débito ou no crédito?
Descubra mais sobre a vergonha nos parágrafos a seguir Quando eu era criança, lá nos anos 90, ainda não existia o filme Divertidamente. Nos desenhos animados que eu assistia, havia um representante muito bom para a vergonha: o personagem Dengoso, que era um dos 7 anões do filme “Branca de Neve”, animação clássica da Disney. Ele ficava com o rosto vermelho e era o mais tímido dos anões. Vamos lá então ao assunto desse post: vergonha e antes de mais nada, vamos ao conceito em si. O que é vergonha? A vergonha é aquele afeto que reflete várias coisas: medo do julgamento, sensação de inadequação, percepção negativa de si e até mesmo inferioridade e desconforto. Ela está envolvida em momentos mais corriqueiros, como tropeçar na rua, e também em situações de exposição (e até mesmo humilhação). A vergonha frequentemente se associa a outras emoções/sentimentos, tais como: medo, ansiedade, culpa e tristeza, por exemplo. A autoestima é também um elemento importante quando buscamos entender todo o cenário envolvido na manifestação da vergonha. Atualmente temos esse afeto retratado na animação Divertidamente 2. O/A personagem foi feita/o toda/o rosa (rubor característico quando ficamos envergonhados) com uma blusa de capuz (tentativa de se esconder) e seus olhos brilhantes, ou seja, um olhar bem expressivo, mais do que a boca, por exemplo. Muito mais que um vexame pontual A vergonha, na realidade, é complexa, e pode ser estudada a partir de fatores sociais e econômicos. Em sua esfera psíquica, está relacionada à identidade do sujeito e tudo que tem a ver com ela. No âmbito dos aspectos socioeconômicos, podemos pensar o assunto sob o contexto de classes, que traz as questões de inferioridade/superioridade envolvidos nas relações de dominação presentes na sociedade (Gaulejac, 2006 apud Feitosa, 2012). Sentir-se envergonhado tem forte ligação com os laços sociais, especialmente quando falamos sobre olhar do outro sobre nós e as questões morais. As inibições, o medo de se expressar/se expor e a vontade de “sumir” (ou seja, a anulação de si) entram nesse cenário, trazendo os aspectos relacionados à identidade, autoestima e o funcionamento da psique humana (para a psicanálise, estamos falando da interação entre Ego, SuperEgo e Id). É interessante dizer também que o fato de sentir vergonha muitas vezes nos traz para a realidade e pode trazer muito sofrimento e humilhação (Gaulejac, 2006 apud Feitosa, 2012). A vergonha controla a sua vida? Existe um ditado popular que diz: “Quem tem vergonha cai de magro” que nos alerta sobre como a vergonha exagerada pode prejudicar aquele que a sente, inibindo muito as suas ações. Agora, quando uma situação vergonhosa não causa grandes consequências emocionais ou traumáticas, contar o que aconteceu pode mobilizar momentos de riso e diversão, tanto pra quem conta quanto pra quem escuta. Na hora não foi legal, mas depois que passou é engraçado. Vergonha e timidez As pessoas consideradas tímidas podem sentir vergonha com mais frequência no seu cotidiano, mas é algo que nos faz pensar: é tímido porque sente mais vergonha, ou sente mais vergonha porque é tímido? Bom, ai precisaríamos entrar em mais um assunto que é a personalidade e o seu desenvolvimento, para além do que chamamos de vergonha ou o medo do julgamento. A vergonha é uma resposta emocional e a timidez está relacionada com a personalidade. Quando analisamos a vergonha, o contexto em que ela surgiu é fundamental, principalmente se ela causa sofrimentos ou impacta na rotina daquele que a sente em excesso. E a vergonha alheia, hein? Curioso que além de termos que viver as nossas próprias vergonhas, ainda temos momentos de “vergonha alheia”. O que nos faz refletir se a vergonha é realmente só do outro… Não passe vergonha e leia também: Daqui me despeço, até o próximo post! Referência FEITOSA, I. P. et al.. Repensando o sentimento da vergonha: contribuições psicossociológicas. Fractal: Revista de Psicologia, v. 24, n. 1, p. 203–210, jan. 2012. https://www.scielo.br/j/fractal/a/5FnwNMLnjC8RPHVhjmmrrwK/?format=pdf&lang=pt
Medo(s)
O que é o medo? Não quero aceitar que ele é importante… O medo é aquela emoção que temos diante de alguma ameaça ou perigo. Ele é fundamental para nossa sobrevivência e não é exclusiva dos seres humanos. Entretanto, nas pessoas, o medo tem nuances subjetivas importantes. Medo e ansiedade podem andar de mãos dadas. Na verdade, muitas vezes, não sabemos exatamente quando é um ou outro… Podemos ter consciência do que temos medo, porém nem sempre conseguimos nomear ou apontar o real motivo de senti-lo. Medo – origens O bebê, desde seus primeiros dias, vivencia o medo do aniquilamento de si mesmo. Quando o bebê sente fome, dor, sede, frio ou necessidade de conforto e de interação ele entende tudo isso como sinais de perigo para a sua existência. Há uma grande angústia frente ao risco de morte. É um grande medo primordial. É o medo do aniquilamento do Eu. Em suas fantasias inconscientes, o bebê precisa lidar com ansiedades persecutórias e se defender delas. Ele precisa também receber conforto e satisfação de suas necessidades físicas e psicológicas através de seus cuidadores. Essas ideias não são minhas. Melanie Klein, em sua clínica psicanalítica, estruturou vários conceitos relacionados ao nosso Ego arcaico e desenvolvimento psicológico. Agora, vamos à pergunta de milhões… Como lidar com o medo? A psicoterapia é fundamental para entender sobre o medo e as particulares dele. Além disso, é oportunidade para pensar melhor em como ele afeta a vida da pessoa. A compreensão dos medos, quando e como eles aparecem e/ou se intensificam pode ser valiosa para superá-los ou lidar melhor com eles. É sempre bom lembrar… Falar, ser ouvido e ser acolhido pela escuta da psicóloga contribui para apurar a percepção de si e para que se possa atravessar sofrimentos com apoio emocional. Esse movimento contribui para uma vida psíquica mais saudável. Caso você perceba que o medo está afetando diretamente a sua qualidade de vida e te incapacitando para atividades diárias, procure o quanto antes ajuda de profissionais de saúde mental (psicólogas e psiquiatras). Referência Melanie Klein. Inveja e gratidão e outros ensaios, 1946-63. São Paulo: Ubu editora, 2023.
Às vezes falo sozinha(o), devo me preocupar?
Entenda os motivos que levam as pessoas a falarem consigo mesmas em voz alta No dia a dia, algumas pessoas podem falar em voz alta o que estão pensando e essa ação por si só não deve gerar preocupações. Hamlet, o príncipe da Dinamarca, é um personagem bem conhecido da literatura que tinha o hábito de conversar consigo mesmo. Tal ação também é chamada de solilóquio ou monólogo. Na história, ele costumava falar em voz alta os seus pensamentos em diversas cenas, expressando o seu fluxo de ideias e dúvidas. Falar consigo mesmo é saudável e está relacionado ao funcionamento cognitivo e emocional. “Pensar em voz alta” está associado à tentativa de: regular as emoções, organizar melhor as ideias e aumentar o foco e concentração durante a realização de alguma atividade que pode ser complexa ou que envolva muitas informações. Falar consigo mesmo é um hábito natural. Agora atenção: se a pessoa passa a ouvir vozes como respostas (ou que mandem a pessoa realizar alguma tarefa) e apresenta um discurso desorganizado, a ajuda de um profissional de saúde mental é necessária. E agora, interagir com inteligência artificial é o falar sozinho atualizado? Escreva nos comentários! Referências DASILVEIRA, A. DA C.; DESOUZA, M. L.; GOMES, W. B.. “Falar com seus botões”: pelos meandros teóricos e empíricos das relações entre conversa interna, reflexividade e self. Estudos de Psicologia (Natal), v. 15, n. 3, p. 223–231, set. 2010.
