Uma análise pra lá de psíquica
A psicanálise é uma psicoterapia, mas nem toda psicoterapia é psicanálise Com raízes em um contexto de investigação médica, inicialmente para compreender a causa de sintomas neurológicos que não eram explicados por questões físicas, um novo campo de pesquisas e tratamento pôde ser criado: a psicanálise. O foco dessa ciência é o inconsciente, que envolve eventos/aspectos da história de vida reprimidos e que estão inacessíveis à consciência (memória, pensamento e fala). No consultório, o discurso em associação livre pode trazer lapsos, chistes, atos falhos e conteúdos oníricos, que são informações importantes para a análise do inconsciente e a interpretação de conteúdos/conflitos recalcados. A psicoterapia ocupa-se do acolhimento e do tratamento de questões emocionais com base em determinada abordagem teórica e técnica, tais como cognitivo-comportamental, fenomenológica, analítica, centrada na pessoa, psicanalítica, entre outras. As abordagens trazem perspectivas diversas da psique humana e do desenvolvimento emocional, além de terem técnicas de condução das sessões e do tratamento das demandas. Na análise, o terapeuta fala apenas em momentos pontuais. Já na psicoterapia, há mais momentos de intervenção e entrevistas. Tanto a psicanálise quanto a psicoterapia precisam do vínculo entre profissional e a pessoa em atendimento, assim como da fala, escuta ativa e ética nesse cuidado. A melhora de sintomas e a cura não são as mesmas da concepção médica. Na psicanálise, lidar com as pressões de conflitos inconscientes, aprender a reconhecer as próprias faltas e se compreender diante do olhar do outro são construções importantes no horizonte de uma análise. A psicanálise, hoje, é sobretudo a formação e a manutenção de vínculos humanos seguros e parceiros. A cada sessão, fala, escuta, transferência e contratransferência são ações e fenômenos que estabelecem um campo de forças para a elaboração e atualização de questões inconscientes. Atualmente, com cada vez mais pessoas conectadas e ocupadas, escutar e ser escutado são ações difíceis de encontrar. É no consultório de psicoterapia, em especial de base analítica, que temos a oportunidade de sermos efetivamente escutados e compreendidos. Inclusive, a relação terapêutica também promove um contexto para o entendimento de que o (auto)cuidado requer tempo, ao contrário do que se vivencia em outros momentos/esferas da vida. A análise é valiosa para falar, ser ouvido e ouvir a si mesmo de maneira amparada. Diferente das IAs, que estão o tempo todo à mão, a sessão de análise tem dia e horário para acontecer, seus efeitos não são imediatos e exige dedicação. Além disso, o vínculo terapêutico e o trabalho da psicóloga movimentam-se no sentido de confrontar ideias e até interpretar as contradições do discurso do paciente. Já as IAs, reforçam o que foi entregue, não possuem compromisso ético, técnico e não oferecem a profundidade de uma sessão de psicoterapia e de análise. Nos moldes do sistema capitalista, que prevê consumo, produtividade e modos de vida padronizados, lidar com a angústia, bancar escolhas e enfrentar as suas consequências são aspectos que podem surgir nas sessões de análise ou de psicoterapia de orientação psicanalítica.
Sobre bolhas e cirandas de pedra
“Tal pessoa furou a bolha”, quem já ouviu essa frase? Furar a bolha é uma expressão frequente no mundo da internet e nos diz sobre alcançar pessoas/lugares que antes não eram atingidos. A rede virtual, facilmente, aglutina interesses, opiniões e reações. Extrapolar isso envolve estratégias para chegar a pessoas diferentes em um curto espaço de tempo. A viralização vem daí: algo na internet que era de um nicho específico e que passou a ser “encontrado” por pessoas novas de forma exponencial. Falando a verdade, com a internet fragmentada e os algoritmos que tentam nos manter mais e mais conectados a conteúdos/pessoas semelhantes, furar a bolha não é tão simples assim (eu acho). Há também as “bolhas” fora do digital, nos grupos sociais da vida real e cotidiana. Independente da natureza da bolha, muitas perguntas surgem pra mim: Quantas relações/ligações formam uma bolha? É possível fazer conexões com bolhas já consolidadas? Qual método usar para furar uma bolha? Quão flexível é uma bolha? O que é necessário para PERTENCER a uma? Existe autossuficiência em cada bolha isolada? Descubra hoje, no Globo Repórter! Agora, o que pode ser mais intrigante e mais restrito do que uma bolha? Sobre cirandas de PEDRA A ideia geral e inicial que motivou a escrita desse texto partiu da leitura do livro “Ciranda de pedra”, da grande escritora Lygia Fagundes Telles. Um dos trechos mais importantes e interessantes da obra, na minha opinião, está a seguir: “Rindo ainda, aproximou-se dos anõezinhos que dançavam numa roda tão natural e tão viva que pareciam ter sido petrificados em plena ciranda. No centro, o filete débil da fonte a deslizar por entre as pedras. “Quero entrar na roda também!”, exclamou ela apertando as mãos entrelaçadas dos anões mais próximos. Desapontou-se com a resistência dos dedos de pedra. “Não posso entrar? Não posso?”, repetiu mergulhando na fonte as mãos em concha. Atirou a água na cara risonha do anão de carapuça vermelha. Ficou vendo a água escorrer por entre seus dedos”. (p. 79-80 do livro Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles). Há um grande desejo da personagem Virgínia em pertencer/participar, porém a estrutura e a configuração dos que já fazem parte de uma ciranda não deixam que aconteça a inclusão e o acolhimento de um novo membro. A ciranda é fechada, não convidativa e até impermeável. Constatar isso é mais duro do que a própria pedra. Alguém sobrou, alguém está fora daquele contexto e não consegue entrar. A ciranda de pedra não se desfaz com um furo, ao contrário de uma bolha de sabão. Quando analisamos grupos/arranjos sociais/categorias profissionais, podemos ter a sensação de que eles são quase que feitos de pedra, ao invés de pessoas. Muitas vezes, nos deparamos com a falta de: abertura/espaço, de trocas, de permeabilidade, de comunicação… Sabemos que o ser humano é social: seu desenvolvimento depende do cuidado, do afeto e do reconhecimento de outro(s). Os vínculos sociais e afetivos saudáveis são muito importantes para a saúde mental, por isso é fundamental encontrar bolhas e cirandas que sejam convidativas e que tragam a possibilidade de trocas genuínas. Nesse âmbito, a personalidade e as habilidades de socialização são variáveis significativas que podem aumentar as chances de acesso e trânsito entre grupos e locais. Na realidade esse é um assunto bem complexo, afinal estamos falando do humano, da formação de grupos e até mesmo de toda uma estrutura de sociedade. Sabemos que a condição social e financeira, a etnia, o gênero, a orientação sexual, a nacionalidade, a categoria profissional e a escolaridade, interferem na quantidade de bolhas e cirandas de pedra que uma pessoa irá fazer parte e encontrar ao longo da vida.
Extraterrestres, IA e (muitas) dúvidas
Quando estava na minha primeira graduação, tive uma disciplina chamada Astrobiologia. Os conteúdos eram sobre as condições para a existência de vida fora da Terra e quais eram as pesquisas relacionadas ao assunto. De acordo com a ciência, seria possível a existência de seres extraterrestres? Vira e mexe aparecem pessoas que já visualizaram o que acham ser OVNIS ou ETs e Isso já faz parte das conspirações sobre esse tema há anos, no Brasil e no exterior. A mais recente notícia de uma suposta aparição aconteceu no final de Maio de 2026, no Paraná. Um moço chamado Mayk postou no Instagram vídeos feitos com o seu próprio celular e relatou ter visualizado o que parecia ser uma nave extraterrestre pousada próxima de sua propriedade rural. Não demorou muito para esses posts viralizarem na internet inteira. Era uma nave de fato? Há quem acredite e quem não, há quem tema e quem não. Eu só digo o seguinte: eu tenho medo é de IAs pra todo lado e não de ETs. Temos como saber de onde as IAs vêm, mas temos dúvidas para onde elas vão (haverá limites?). O que aconteceu no Blade Runner (1982) se confirmará na realidade? Eu espero que não. Falando dos impactos da IA em nossas vidas, vale lembrar que no dia 05 de junho foi comemorado o Dia Mundial do Meio Ambiente, importante para lembrarmos do alto consumo de energia elétrica e de água pelos data centers das IAs e como isso afeta a vida humana e os ecossistemas. Enfim, esse texto ficou um pouco sem-pé-nem-cabeça, mas muitas vezes a vida se apresenta dessa maneira. Até o próximo texto ~ou não. Não sei se irei recuperar a ligação entre pensamentos/ideias e os dedos para redigir outro post.
Você está sentindo que precisa começar algo novo agora, pra já?
Você já leu “Drácula”? Todo dia 03 de maio é uma chance de (re)começar, então. O livro, clássico da literatura mundial, foi escrito por Bram Stoker (que foi um grande autor irlandês) e publicado em 1897. A história é contada através de trocas de cartas entre personagens, notícias de jornal e registros de diários. A história começa com o londrino Jonathan Harker contando sobre a sua viagem de trabalho até a Romênia para resolver a burocracia de uma casa comprada por um conde da Transilvânia que quer se mudar para Londres. Os registros de diário e as cartas que Jonathan escreve relatando sobre o percurso e o que acontece com ele naquelas terras remotas são feitos pensando em sua noiva, Mina Murray, que ficou na Inglaterra. Agora pula do ano de publicação de Drácula para 2021, data em que Matt Kirkland cria o boletim informativo (newsletter) chamado “Dracula Daily”. As pessoas que se inscrevem recebem por e-mail trechos da narrativa de acordo com as datas dos acontecimentos descritos no livro. O primeiro e-mail chega em 03 de maio, data em que tudo tem início. https://draculadaily.substack.com/ Eu já me inscrevi, me desinscrevi e agora em 2026 quero acompanhar novamente. Repito a pergunta: você está sentindo que precisa começar algo novo agora, pra já? Se inscreva no daily Drácula, é bem interessante, parece que chega uma carta com notícias para você. Coitado do Jonathan, foi trabalhar e acabou conhecendo um dos piores clientes de sua carreira.
Dia dos trabalhadores
A origem da palavra trabalho vem do latim tripalium, um objeto para torturar escravizados e presos. Na idade antiga, a palavra passou a ser associada a um grande esforço físico, sofrimento e ao trabalho exaustivo. O conceito passou a ser empregado de modo geral para as mais diversas funções e atividades executadas por pessoas das classes mais baixas com a necessidade de sobrevivência. Para a física, o trabalho é “uma medida da energia transferida pela aplicação de uma força ao longo de um deslocamento.” (Wikipédia). Pensando na ação humana, a transformação da natureza faz parte da vivência de todos nós aqui Terra. Há muita energia envolvida, física e mental. As tecnologias substituíram muitas das operações na indústria, por exemplo e, com isso, a automação de processos eliminou postos de trabalho e também criou a necessidade de mão-de-obra cada vez mais especializada. Comecei o texto falando sobre a origem da palavra trabalho e tudo o que está associado ao conceito. E quando pensamos no assunto, precisamos considerar as realidades das pessoas que executam o trabalho: os trabalhadores. Quem são eles? Em quais condições executam as suas funções? Os seus salários são corrigidos de acordo com a inflação? Quais são os seus direitos? Há salários e jornadas de trabalho dignas? Quais são os riscos psicossociais associados aos postos de trabalho? São inúmeras questões e, sobretudo, são forças envolvidas que requerem uma mobilização comum das pessoas que vendem o seu tempo e a sua força de trabalho. Quando o foco se volta para o trabalhador, ou seja, o sujeito, estamos falando de alguém que pratica ações, que podem ser individuais e coletivas, sobretudo enquanto categoria profissional. Daqui me despeço, até o próximo post.
PAREM AS MÁQUINAS
Esse texto é uma crítica direta a uma prática que tive notícias da existência agora, em abril de 2026. Estou sabendo que existe uma plataforma focada em “automatizar a clínica de psicologia”. ATÉ AÍ QUASE TUDO BEM… Mas esse serviço oferece algo a mais desde 2025: uma ferramenta que GRAVA O ÁUDIO DA SESSÃO, TRANSCREVE, RESUME E GERA o PRONTUÁRIO do paciente. Isso para mim é um absurdo! Não tem cabimento! Fornecer quantidades enormes de informações EXTREMAMENTE SENSÍVEIS, ÍNTIMAS E SIGILOSAS para uma IA, por mais que a propaganda diga que é segura e bláblá, me provoca muito incômodo e angústia. O prontuário é dever e função do psicólogo. Escrever um bom prontuário é parte do trabalho clínico! Ele é um registro de informações sobre o atendimento de forma condensada, com a preservação do sigilo do paciente e em poucas linhas. Se o profissional não consegue gerenciar atendimentos e tudo mais que envolve a clínica, ele precisa repensar e organizar melhor a rotina de trabalho. E é aquilo né, se não houvesse psicólogos consumindo tal serviço, o fornecimento dele com certeza já teria acabado. E O BURACO É MUITO MAIS EMBAIXO Algo mais elementar que está aglutinado nisso tudo e que é vital para a clínica psicológica e da sessão de terapia: a ESCUTA. Autorizar uma MÁQUINA a ouvir o atendimento e TRANSCREVÊ-LO é demais para mim… O trabalho do psicólogo é a escuta atenta, que vai sendo refinada com a prática. Além disso, a memória é nossa aliada máxima. Claro que não lembraremos de todas as palavras ditas pelo paciente, somos humanos (a IA não é), mas precisamos recordar as questões e as nuances do contexto de vida do paciente. Aspectos de sua história e da sua família, seus traumas, seus sofrimentos, suas alegrias e tudo mais, a partir de um vínculo humano, somente. Qual é a necessidade de salvar páginas e páginas de transcrições de áudio? Se não forem para pesquisa científica (aprovada por comitê de ética, com a autorização da pessoa atendida e com objetivos muito bem esclarecidos) qual é a função prática de gerar e manter esse material? Entregar milhares de dados para não escrever os prontuários dos pacientes? Eu acho que esse tipo de ferramenta não deve ser usada. Gravar sessões para poupar tempo de burocracias não me convence e nunca irá. Observação: não são todos os psicólogos que usam a plataforma. Chega por hoje! Até o próximo post (ou não).
De uma vida pra outra
De uma vida pra outra é uma expressão que minha mãe fala às vezes: “fulano está de uma vida pra outra”. Acho essa frase muito interessante e poética até. Ela traz a ideia de dilema, impasse, incerteza, não saber o que fazer, conflito, crise e muita angústia. Ou seja, um baita sofrimento. Nesses momentos, há a cisão de si mesmo, onde tudo fica confuso. A fragmentação do Ego é um mecanismo de defesa importante para lidar com a angústia, como nos explicou Melanie Klein, psicanalista austríaca. Diante desses momentos difíceis, vale uma conversa com alguém de confiança e buscar apoio ou ajuda para a resolução do problema questão. Outra atitude importante é levar a situação para a terapia, ou seja, acolhimento e acompanhamento das condições emocionais, fortalecimento do Ego e a sua integração. A angústia faz parte do funcionamento do psiquismo humano. É preciso encontrar formas de lidar e falar sobre ela. Um dos caminhos são as conexões humanas genuínas que contribuem para um desenvolvimento emocional mais saudável, na medida do possível e das circunstâncias. Até o próximo post e se cuide.
Saúde!
A saúde está entre nós “Desejo saúde e felicidades, muitos anos de vida!”, “Que o bebê venha com muita saúde!”, “Tendo saúde, o resto corremos atrás” e, não menos importante: “Saúde!”. São frases que fazem parte do nosso cotidiano, nos desejos de feliz aniversário, de ano novo, após um espirro e quando um bebê está para nascer. A origem da querida palavra saúde vem do latim salus, que quer dizer íntegro, inteiro. Salvus remete à integridade física, ou seja, “a salvo”. Sanus traz a ideia de “são”, de correto, verdadeiro. Sanitas está relacionada à sanidade, sanatório, proveniente do francês antigo (Almeida Filho, 2000). 07 de abril: dia mundial da saúde, por quê? Esse dia foi escolhido por ser a data de fundação da OMS, Organização Mundial da Saúde, em 1948. Em 2026, o tema é “Juntos pela saúde. Apoie a ciência”, com o pano de fundo da saúde única, global, “uma só saúde”. A proposta é interessante e traz a ideia de integração, com foco na saúde pública. Vale lembrar que a sede da OMS é em Genebra, Suíça, com políticas públicas de bem-estar social estabelecida há anos. O desafio para uma saúde única é gigante especialmente em países grandes, desiguais e submetidos ao sistema neoliberal. Aqui no Brasil, temos o SUS, Sistema Único de Saúde, cujos princípios e diretrizes têm em essência uma robusta política pública de saúde e inclusão social. Tem problemas? Tem problemas! Supre toda a população? Ainda não, mas ele é essencial e faz diferença na vida dos brasileiros. Acredito que o caminho justo para o SUS deva ser mais investimentos, ampliação do acesso e menos ataques a sua existência. Do que estamos falando quando o assunto é saúde? De muitas coisas, a lista é grande! O assunto é complexo e está além de simplesmente “não ter doenças”. De acordo com a OMS, saúde é: “completo estado de bem-estar físico, mental e social”. Muitas questões perpassam a ideia de saúde integral: sociais, econômicas, políticas, as de gênero, ambientais, entre outras. Ao longo da história, muitos modelos foram propostos para o entendimento do conceito de saúde e da ausência dela. Um deles é de que saúde e doença se articulam em um processo. Nessa perspectiva, são considerados os fatores determinantes e condicionantes associados aos contextos que envolvem a produção e a persistência da saúde e doença, de acordo com cada fase de vida da pessoa. As nuances envolvidas em tudo isso ficarão para um outro post. Daqui me despeço, saúde! Referências ALMEIDA FILHO, N. DE .. Qual o sentido do termo saúde?. Cadernos de Saúde Pública, v. 16, n. 2, p. 300–301, abr. 2000. Dia Mundial da Saúde 2026: Juntos pela saúde. Apoie a ciência. https://www.who.int/news-room/events/detail/2026/04/07/default-calendar/world-health-day-2026-together-for-health-stand-with-science Cruz, Marly Marques da. Concepção de saúde-doença e o cuidado em saúde. https://dms.ufpel.edu.br/sus/files/media/saude_doenca.pdf
Do que estamos falando quando o assunto é saúde mental feminina?
Quando eu era criança, lembro de assistir um desenho na tv Cultura chamado Meena. Um dos episódios mostrava as atividades da rotina dela e as de seu irmão, e eram bem diferentes: Meena ocupava parte de seu dia com afazeres domésticos, enquanto que o seu irmão podia brincar e descansar. Esse desenho é dos anos 90, foi produzido com foco nas populações asiáticas, como o Paquistão e Bangladesh, por exemplo, e países do sul do continente asiático. Embora muitas coisas tenham mudado, pensando agora aqui no ocidente, não é difícil perceber que ainda esbarramos em divisões de tarefas para meninos e meninas até hoje. O mesmo vale para os brinquedos tradicionalmente destinados às meninas e aos meninos. E em relação à mulher adulta, em 2026, o que isso tem a ver? Não é segredo pra ninguém: a rotina das mulheres é mais recheada de coisas que a dos homens. As horas do dia, na maioria das vezes, são divididas entre trabalho, afazeres domésticos, cuidados com filhos, com pessoas mais velhas da família, com a própria saúde, estudos e o que mais for necessário de acordo com o padrão e o estilo de vida da mulher. As mulheres trabalham, por semana, 10 horas a mais que os homens, em média, de acordo com o Relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026 baseado no período de 2020-2025. Todo esse cenário traz sobrecarga, influenciando no físico e no mental das mulheres, fora a desvalorização estrutural do trabalho feminino, seja ele remunerado ou não. No livro “O lado invisível da economia”, Katrine Marçal argumenta que todo o trabalho doméstico e de cuidados, ou seja não remunerados, realizado pelas mulheres viabilizou, e ainda viabiliza, a estrutura econômica e de poder vigentes, na qual os homens desempenham, na grande maioria, as funções que são melhor remuneradas e mais valorizadas. E ainda por cima… …existem as pressões relacionadas à aparência e ao comportamento somando preocupações e expectativas à vida das mulheres, fatos que não são de hoje. Enfrentamos ainda o medo de sofrer algum tipo de violência por parte de um desconhecido na rua ou até mesmo por um companheiro. Isso tudo impacta nossas rotinas e ocupa o nosso mental com grande pesar. Todos esses fatores acarretam em um maior número de casos de transtornos mentais (tais como ansiedade e depressão, entre outros) em mulheres. Enfim, muitos outros fatores poderiam ser adicionados ao tema, mas daqui me despeço. Até mais.
Sherazade e a trama da sobrevivência

Conheça a história da icônica heroína e narradora das histórias das “Mil e Uma Noites” Todo mundo sabe que Sherazade é uma personagem memorável e excelente contadora de histórias lá do médio oriente. Mas você sabe qual é a dela? É nas primeiras páginas do volume 1 das 1001 noites que ficamos sabendo o motivo dela contar histórias, noite após noite. Antes de qualquer narrativa, existiu todo um contexto, uma moldura, o enredo zero. A partir dele, todos os outros foram sendo tecidos com coragem, perspicácia e um propósito maior, como a tecitura de uma tapeçaria antiga e mágica. A história número zero No volume um do “Livro das Mil e Uma Noites”, ramo Sírio, é contado que havia um rei/sultão chamado Shahryar, casado, que estava planejando uma grande viagem e gostaria que o seu irmão Schazzenan fosse com ele. O irmão, ainda abalado com a recente descoberta de uma traição em seu casamento e após matar a sua própria esposa, decide não ir. Shahryar partiu então com a sua caravana e Schazzenan ficou no palácio. Nesse interim, a esposa do rei Shahryar o trai. Quando o rei retorna, seu irmão conta o que viu e Shahryar assassina cruelmente a rainha. Cheio de ódio e vontade de vingança, ele decide casar com uma moça por dia e mandar matá-la na manhã seguinte. Diante da morte de várias moças, sem que ninguém conseguisse parar isso tudo, Sherazade decide se casar com Shahryar e por fim às mortes. O seu pai, que é o vizir do rei, tenta convencê-la a não fazer isso, mas ela vai em frente e se casa, levando a sua irmã Dinazade junto para executarem um plano. Após o casamento, à noite, ela coloca em prática a sua estratégia combinada com a sua irmã: Dinazade bate na porta do quarto de Sherazade e pede que lhe conte uma história. Sherazade começa então a contar uma história, tendo o rei Shahryar e Dinazade como seus ouvintes. No amanhecer, ela parou de contar a história em um ponto emocionante e decisivo, prometendo continuar somente à noite. Com isso, Shahryar fica curioso e envolvido e não manda matarem Sherazade. Assim, noite após noite, as várias histórias contadas possibilitaram que Sherazade, e as demais moças do reino, continuassem vivas. Há um vídeo muito interessante da Renata no qual ela explica a simbologia em torno da obra e do número 1001: Culturaria da Rê https://youtu.be/EmWypGmVogs?si=yDBmCJ113SO85NG5 Enfim… Que os homens parem de cometer violências e de matarem as mulheres, sem que nós tenhamos que pensar o tempo todo em modos de escaparmos e permanecermos vivas. A lei do feminicídio (Lei n. 14.994) entrou em vigor em 2015 e, em 2025, o Brasil registrou o maior número, em 10 anos, desse crime (ANUÁRIO BRASILEIRO DESEGURANÇA PÚBLICA, 2025). Além do cumprimento efetivo das leis (Lei Maria da Penha, que completará 20 anos agora em 2026, e a lei do feminicídio) e a consequente punição dos agressores, sabemos que temos um grande desafio a superar enquanto sociedade: o machismo estrutural, que ainda é muito presente em nossa rotina e é o pano de fundo para que situações de violência tão estarrecedoras continuem acontecendo dia após dia e dia e noite após noite. Daqui me despeço, até o próximo post! Referências Livro das mil e uma noites, volume 1, ramo sírio. Editora Biblioteca Azul. Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2025) ANUÁRIO BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA 2025. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2025/07/anuario-2025.pdf
