“Tal pessoa furou a bolha”, quem já ouviu essa frase?
Furar a bolha é uma expressão frequente no mundo da internet e nos diz sobre alcançar pessoas/lugares que antes não eram atingidos. A rede virtual, facilmente, aglutina interesses, opiniões e reações. Extrapolar isso envolve estratégias para chegar a pessoas diferentes em um curto espaço de tempo. A viralização vem daí: algo na internet que era de um nicho específico e que passou a ser “encontrado” por pessoas novas de forma exponencial. Falando a verdade, com a internet fragmentada e os algoritmos que tentam nos manter mais e mais conectados a conteúdos/pessoas semelhantes, furar a bolha não é tão simples assim (eu acho). Há também as “bolhas” fora do digital, nos grupos sociais da vida real e cotidiana.
Independente da natureza da bolha, muitas perguntas surgem pra mim: Quantas relações/ligações formam uma bolha? É possível fazer conexões com bolhas já consolidadas? Qual método usar para furar uma bolha? Quão flexível é uma bolha? O que é necessário para PERTENCER a uma? Existe autossuficiência em cada bolha isolada? Descubra hoje, no Globo Repórter! Agora, o que pode ser mais intrigante e mais restrito do que uma bolha?
Sobre cirandas de PEDRA

A ideia geral e inicial que motivou a escrita desse texto partiu da leitura do livro “Ciranda de pedra”, da grande escritora Lygia Fagundes Telles. Um dos trechos mais importantes e interessantes da obra, na minha opinião, está a seguir:
“Rindo ainda, aproximou-se dos anõezinhos que dançavam numa roda tão natural e tão viva que pareciam ter sido petrificados em plena ciranda. No centro, o filete débil da fonte a deslizar por entre as pedras. “Quero entrar na roda também!”, exclamou ela apertando as mãos entrelaçadas dos anões mais próximos. Desapontou-se com a resistência dos dedos de pedra. “Não posso entrar? Não posso?”, repetiu mergulhando na fonte as mãos em concha. Atirou a água na cara risonha do anão de carapuça vermelha. Ficou vendo a água escorrer por entre seus dedos”. (p. 79-80 do livro Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles).
Há um grande desejo da personagem Virgínia em pertencer/participar, porém a estrutura e a configuração dos que já fazem parte de uma ciranda não deixam que aconteça a inclusão e o acolhimento de um novo membro. A ciranda é fechada, não convidativa e até impermeável. Constatar isso é mais duro do que a própria pedra. Alguém sobrou, alguém está fora daquele contexto e não consegue entrar. A ciranda de pedra não se desfaz com um furo, ao contrário de uma bolha de sabão.
Quando analisamos grupos/arranjos sociais/categorias profissionais, podemos ter a sensação de que eles são quase que feitos de pedra, ao invés de pessoas. Muitas vezes, nos deparamos com a falta de: abertura/espaço, de trocas, de permeabilidade, de comunicação…
Sabemos que o ser humano é social: seu desenvolvimento depende do cuidado, do afeto e do reconhecimento de outro(s). Os vínculos sociais e afetivos saudáveis são muito importantes para a saúde mental, por isso é fundamental encontrar bolhas e cirandas que sejam convidativas e que tragam a possibilidade de trocas genuínas. Nesse âmbito, a personalidade e as habilidades de socialização são variáveis significativas que podem aumentar as chances de acesso e trânsito entre grupos e locais.

Na realidade esse é um assunto bem complexo, afinal estamos falando do humano, da formação de grupos e até mesmo de toda uma estrutura de sociedade. Sabemos que a condição social e financeira, a etnia, o gênero, a orientação sexual, a nacionalidade, a categoria profissional e a escolaridade, interferem na quantidade de bolhas e cirandas de pedra que uma pessoa irá fazer parte e encontrar ao longo da vida.

